Quando a luz bateu naquela janela percebi que algo estava
errado, algo não estava no lugar
Senti um arrepio diferente, sentia que algo tinha mudado,
não era mais o mesmo lugar ou será que eu tinha mudado.
Olhei ao redor e não reconheci onde estava, não era um lugar
conhecido, era limpo, tranquilo, muito diferente de onde eu estava. “Como
cheguei até aqui” pensei.
Meu quarto tinha pouca coisa, uma cadeira, a cama onde eu
estava deitado, um pequeno tapete onde agora o sol batia.
“ Que será que aconteceu” pensei. “Preciso falar com
alguém”, mas não sabia quem chamar.
De repente uma pessoa entrou em meu quarto, uma mulher
sorridente me disse:
- Otavio você já acordou? Gostaria de tomar alguma coisa? Um
chá talvez?”
Não a reconheci, mas ela sabia meu nome e eu odeio chá!
-Não obrigado – respondi – Gostaria de água e algumas
respostas pode ser?
- Claro Otavio! – respondeu ela calmamente e sorrindo. –
Primeiro sua água.
Peguei o copo que ela me deu, tomei e senti um estranho
prazer naquele copo, como se há muito eu não bebesse água.
- Gostaria de saber onde estou e o que estou fazendo aqui. –
eu disse.
- Você foi trazido para cá logo depois do seu desencarne
para receber tratamento fluídico e se recuperar. – ela disse muito calmamente.
Fiquei em choque com a palavra “desencarne”, comecei a
respirar ofegante, meu coração acelerou batendo mais rápido. Eu não podia ter
morrido, me sentia mais vivo do que nunca, sentia meu coração pulsando forte,
com certeza não era verdade.
- Que espécie de brincadeira é essa moça? Estou vivo, me
sinto bem e não estou entendendo o que está acontecendo. Como você se chama?
Como sabe meu nome? – eu disse já ofegante.
- Me chamo Sofia e estou aqui para ampará-lo. Tenha calma,
tudo correrá bem, não se preocupe. Aplicarei passes em você para que possa
descansar em breve conversaremos de novo.
Em pouco tempo eu estava dormindo e ao que parece dormi um
longo período.
Acordei bem-disposto, não sei quanto tempo dormi, mas era dia e eu me sentia muito bem. Lembrava de que estava em um hospital e de uma moça, ... como era mesmo o nome dela? Ah, sofia... ela me disse que... morri. Como? Só poderia ser uma brincadeira, um engano, claro! Eu me sentia ótimo, melhor do que nunca estive.
Precisava chamar a enfermeira e perguntar sobre a minha
família. Não tinha ideia de quanto tempo estava naquele lugar, aliás, onde era
aquele lugar? Não sei!
Tentei me levantar e ir até a porta ao abrir encontrei Sofia
que muito calma e sorridente estava me esperando.
- Otavio, que bom vê-lo bem! Já está pronto para sair e ver
mais deste lindo lugar?!
- Sim, quero sair um pouco, me sinto ótimo, mas antes
gostaria de falar com alguém sobre a minha família. Eles têm vindo aqui me
visitar? Tem alguém a minha espera.
- Não eles não estão aqui Otávio – disse ela com ternura. –
Eles não podem estar aqui, mas tenho certeza de que estão bem e saudosos de sua
presença.
- Ora não me venha de novo com essa história de que eu
morri, só pode ser uma grande brincadeira isso. Me sinto ótimo e mais vivo do
que nunca.
- Que bom que se sente assim, é isso mesmo que esperamos que
aconteça, mas aguarde mais um pouco que você logo terá uma visita e ela esta
ansiosa para vê-lo.
- Ah que bom, sinto saudades da minha família.
Neste momento alguém bate na porta e olhamos ao mesmo tempo.
- Mãe! – exclamei sem acreditar no que via
- Meu filho querido, que saudades senti de você, há muito
aguardo uma oportunidade de vê-lo.
Otavio então se dá conta de que Sofia falava a verdade, pois
sua mãe falecera há alguns anos e ele sentia muito sua falta. Mas a alegria em
vê-la logo tornou-se em tristeza pois era a confirmação de que estava mesmo
morto e não tornaria a ver sua família.
Os dois se abraçaram e Otavio chorou como criança, não
queria ter partido, quem ampararia sua família agora? Quem cuidaria deles? Isso
não poderia ter acontecido.
A mãe de Otavio e Sofia lhe aplicavam passes energéticos
buscando equilibrar aquele irmão que descobria a verdade da vida eterna naquele
momento e que ainda tinha muito o que aprender
*******************************
Naquele momento se iniciou uma jornada de descoberta e
aprendizado para mim. Um longo caminho com muitos percalços mas muita esperança
de um dia voltar a terra e fazer tudo diferente.
Algum tempo depois saí daquele hospital e fui morar com
minha mãe em uma casa modesta na cidade espiritual Bem Querer. Entendi que a
vida não acaba após a morte, lugar onde espíritos se preparavam para mundos
superiores.
Todos que ali estavam como eu aprendendo e se preparando
para mais uma jornada na terra. Porém descobri que isso poderia levar muito
tempo e que ainda havia muito o que aprender.
Aos poucos fui me integrando a minha nova vida, reconhecendo
antigos amigos, relembrando antigas provas, reconhecendo minhas falhas e
entendi que eu tinha muito a evoluir e muito mais para aprender.
Minha mãe, minha companheira de outras vidas, muito me
ajudou nesse processo. Tudo o que vivi e aprendi tinha um proposito: preparar
minha nova encarnação e com ela reparar os erros que ainda insistiam em me
acompanhar.
*************************
Bençãos são aquelas que colhemos quando fazemos algo de bom
a alguém.
Não foi meu caso.
Vivi minha vida para mim e minha família, busquei conforto e
bens materiais acreditando que isso seria o suficiente para ser um bom pai e um
bom marido, mas descobri – tarde demais – que não era.
Saía cedo de casa, chegava tarde, estava sempre cansado e
com problemas de trabalho para resolver, não tinha tempo. Nunca tinha tempo.
Minha família compreendia claro, afinal eu estava me
esforçando para dar tudo a eles, era uma luta diária.
Reuniões, relatórios, contas e mais contas, eu era um homem
muito ocupado. O mundo exigia isso, só os fortes sobrevivem, era assim que eu
pensava.
Com o tempo minha vida passou a ser só trabalho e quando
percebi meus filhos já tinham crescido, não me lembrava de datas importantes e
quase nunca estava em família.
Cansado, eu estava sempre cansado, meu erro foi esse, a vida
passou e eu não vi.
Não fiquei rico, mas também não aproveitei minha vida
correndo sempre atrás de algo inalcançável.
Fiz minha passagem nem sei exatamente como, ou porquê. Se
estava doente não prestei atenção, não tinha tempo de ir ao médico. Só sei que
um dia fui trabalhar e após uma reunião tensa senti uma dor no peito tão forte
que não consegui e me segurar e cai.
Desmaiei acho.
Quando acordei e estava num hospital, aquele do início da história.
Claro que estranhei minha família não me visitar, mas entendo eles. Deviam
estar chateados comigo, mesmo assim fiquei preocupado, quem cuidaria deles
agora?
Quando Sofia me disse que eu havia feito minha passagem, não
acreditei, foi preciso que minha mãe, há muito desencarnada viesse me visitar
para que eu acreditasse nessa nova realidade.
Agora estou na casa dela mas penso em minha família, o que
aconteceu com ela? Preciso saber. Foi ai que comecei uma jornada de
descobertas, erros e acertos.
É sobre essa historia que quero contar, quero ajudar a
tantos que como eu vivem deixando a verdadeira vida passar. Buscam ouro de tolo e quando se arrependem já é
tarde, assim como eu.
A saudade era grande, queria estar com minha família, mas
não me foi permitido, me disseram das muitas vezes que pedi que eu não estava
pronto, que minha visita atrapalharia não só a mim, mas aos meus familiares
também. E embora eu não entendesse bem o porquê, aceitei.
Minha mãe sempre ao meu lado muito me ajudou, cuidava de mim,
me ensinava coisas que eu tinha que aprender. Em minha jornada de aprendizado
ouvia os irmãos mais evoluídos em suas palestras e participei de cursos, aos
poucos fui entendo muita coisa.
Também acompanhava minha mãe no socorro de irmãos que assim
como eu chegavam perdidos e céticos de sua nova condição.
Mas nada disso substituía minha família, sentia falta deles,
precisava saber como eles estavam, mas já haviam me dito, não era a hora.
Conheci também novos amigos, Juliano era um deles, um jovem
socorrista que trabalhava com minha mãe e Gertrudes uma mulher muito sábia e
culta. Ela me dizia coisas profundas que me faziam pensar e com isso rever
minha vida na terra.
Gertrudes era como minha mentora e estava sempre comigo,
certo dia em uma conversa ela me disse sobre como as visitas podem atrapalhar
as energias de encarnados e desencarnados.
- Você precisa estar bem preparado Otávio e acompanhado
também, a energia terrestre é mais densa que a nossa e isso por si só o
deixaria debilitado, mas os sentimentos emanados de seus familiares podem
atingi-lo tanto para o bem como para o mal, e isso pode desequilibrá-lo
energeticamente – dizia ela.
- Mas então nunca mais voltarei a vê-los?
- Não é bem assim, ainda não é o momento, mas ele chegará.
Continue se preparando, acompanhe os casos que chegam ao hospital e aprenda com
eles, logo poderá visitá-los.
E foi com essa promessa que eu trabalhei com afinco na
cidade espiritual Bem Querer.
Certo dia fomos solicitados em paragens mais inferiores para
socorrer um irmão sofredor, ele pedia auxílio pela primeira vez em 300 anos.
Estava sujo, cansado e ainda trajando os restos de sua roupa do período do seu
desencarne.
Tanto sofrimento o havia embrutecido, suas feições eram
grotescas e o corpo cheio de chagas, pela primeira vez gritava por socorro divino.
Nossa equipe o amparou com passes fluídicos para lhe restaurar as forças e em
seguida foi levado ao hospital para tratamento.
Fiquei muito impressionado com seu estado pois não sabia que
era possível ficar assim por tanto tempo. Pensei em quanto tempo levaria para
que ele se recuperasse e em quanto tempo mais levaria para que pudesse estar
pronto para visitar outras paragens terrenas. Acredito que muito tempo.
Eu fiquei preocupado e isso me fez lembrar dos meus
queridos, espero logo poder vê-los.
Quando eu comecei a trabalhar na seara divina no socorro dos
irmãos foi que eu entendi muitos processos que vivi quando encarnado.
Eu precisava daquilo, daquele aprendizado. Aprendi que a
avareza, a raiva, a falta de humildade não levavam a nada, ao contrário,
levavam á aqueles lugares horríveis onde socorríamos pessoas á muito
esquecidas, presas nas suas próprias emoções e desventuras. Entendi que eu
precisava mudar, precisava pedir desculpas a todos a quem prejudiquei e
decepcionei, precisava ver minha família, dizer que estava vivo, que estava
mudado.
Eu estava pronto para esse encontro, conversei com Gertrudes,
ela muito paciente concordou em falar com os mentores da colônia e solicitar a
permissão.
Algum tempo depois a autorização veio e não coube em mim de
felicidade.
- Podemos ir agora? – perguntei eufórico
- Creio que sim Otavio, mas tenho algumas orientações antes
de irmos.
Ela me explicou tudo e partimos em direção ao orbe terrestre.
Que Alegria!! Mal esperava para ver minha família.
Nos concentramos juntos e nos materializamos em casa, na
minha casa. Como era bom estar novamente em casa.
Nada tinha mudado muito, apenas alguns detalhes da
decoração, uma coisa ou outra, mas ainda era minha casa.
Meu filho entra pela porta irritado, nervoso senta-se no sofá
e começa a chorar, triste e lá fica, eu tento me aproximar, mas sou impedido
por Gertrudes.
Minha esposa Camila entra, deixa a bolsa na mesa e vai
conversar com meu filho, eles falam de uma briga que aconteceu na escola, mas
uma vez eu tento interferir e sou impedido.
Enquanto a cena desenrola em nossa frente um homem chega até
a sala e Camila o abraça e o beija.
Sem acreditar no que via comecei a tremer, fiquei incrédulo,
como podia? Ela tem outro!
Meu corpo treme com mais força e começo a me sentir mal, Gertrudes
então pega na minha mão e voltamos a cidade astral Bem Querer. Eu não podia acreditar,
ela tinha outro...
O que houve comigo? O que houve com minha família? Sofri com
tudo isso.
Minha esposa tinha outro, desde quando? Eu morri ta certo,
mas será que ela já tinha outro em meu lugar antes disso? Fui ausente eu sei,
mas eu trabalhava pela minha família.
Agora nada fazia sentido, nem as horas trabalhadas, nem o
esforço que fiz, nem o fato de eu não estar mais em terra... nada fazia
sentido, nada importava, minha família já não era minha.
Ao me dar conta disso chorei, chorei muito... senti o peso
da minha perda como se quem tivesse morrido não tivesse sido eu. Eu estava aqui
vivo e sozinho, ... o que fazer agora?
Ao ver meu sofrimento minha mãe me amparou dizendo:
- Agora estas pronto para rever seu passado, mas não esse
que conheces, aquele que não lembras e quando isso acontecer, entenderás meu
filho.
Chorei muito, minha mãe me aplicou passes fluídicos que me
acalmaram e me adormeceram durante um tempo, não sei precisar o quanto, mas
acordei mais calmo, ainda triste e mais calmo.
Certo dia fomos ao encontro dos mentores espirituais da colônia.
Euripedes me chamou para uma conversa e lá me esclareceu muito sobre meu
passado, meus erros pretéritos. Pude entender muito e senti vergonha por ter
falhado mais uma vez como pai e como marido.
Prefiro não dizer aqui o que aconteceu comigo, mas afirmo que
não me orgulho de nada do que fiz. É preciso mudar, fazer diferente... é isso!
Entre tantos momentos que aqui passei estar sem minha família
foi o mais difícil, Os amigos espirituais me ensinaram que todos nos temos nossas
histórias pregressas e que de alguma forma temos que aprender o desapego.
Eu auxiliei muitos que como eu estavam apegados a suas famílias,
explicava o que tinha aprendido que era melhor seguir o caminho vibrando pelo
bem de todos e evoluir, ... sozinho.
Auxiliando os outros, me ajudei também, hoje estou tranquilo.
Minha família segue feliz sem mim. Tendo seus aprendizados é claro, mas amparados.
E assim sigo por aqui.
Agradeço por ter ouvido minha história, ela não é um bestseller,
mas é a minha história.
Agradeço com carinho.
Inspirado por Luciano - Otavio
24/11/25 a 03/04/26

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